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sábado, 24 de junho de 2017



Mais radiante que o Sol
Mais puro que a neve
Mais sutil que o éter
É o si próprio,
O espírito em meu coração.
Esse si próprio sou eu,
Eu sou esse si próprio.

Fonte: GA 245, cap. “Esotherische Stunde in Berlin am 24. Oktober 1905” (Aula esotérica em Berlim em 24/10/1905), p. 85. A palavra Selbst, traduzida por “si próprio”, corresponde ao self em inglês. Trad. VWS; rev. SAL

Acordai, Acordai, Acordai João!

A lenda do São João... 




Um dia, Nossa senhora, que trazia a Nosso Senhor Jesus Christo, foi visitar a sua prima Isabel, que também trazia em seu bendito seio a S. João Batista. Apenas as duas sagradas primas se avistaram, o divino Baptista, que não tardava a nascer, se ajoelhou em adoração a Jesus. Santa Isabel, que isto sentira, não tardou em comunicar o milagre à Virgem, que, exultando, perguntou-lhe – “Que sinal me dareis, quando nascer vosso filho?”– Mandarei plantar nesta montanha um mastro com uma boneca e ascender em torno de uma fogueira”, respondeu-lhe.
 
E de feito, na véspera de São João, a Mãe de Deus, vendo de sua morada uma fumacinha, labaredas e o mastro, partiu, indo visitar santa Isabel.
Desde então e que se festeja o santo com mastro e fogueira.

E vem a continuação da história “meses depois, quando Santa Isabel cantava, ninando o seu bendito filho, este lhe perguntou” Minha mãe, quando é meu dia?”– “Dorme, meu filhinho, dorme, logo que ele for eu ti direi”. E São João dormiu. Acordando, porém na noite de São Pedro, e ouvindo foguetes e vendo fogueiras acesas, insistiu, - “Minha mãe, quando é meu dia?”- “O teu dia já passou”, acudiu-lhe ela. – “ora, mina mãe, por que não me disse que eu queria brincar na terra? Santa Isabel tinha razão em nada dizer, se São João descesse do céu, o mundo se arrasaria em fogo!”
 
Assim que escurecia, os primeiros fogos riscavam os céus, as cabeças de alcatrão esfumaçavam nos postes das porteiras, indicando o local da festança, os busca-pés corriam atrás dos passantes, reluzindo e estourando. As fogueiras ardiam nas chácaras, nos quintais e nos grandes pátios das fazendas. Nos sobrados, começavam o combate das pistolas, ao mesmo tempo que das janelas e das sacadas formava-se cascatas de fogo. Ao longo dos caminhos, escutava-se o ruído inconfundível de cartas de bichas que estouravam dentro de potes de barro e barricas cobertas, colocados à distância pelos moradores do quarteirão. Numa casa pequenina, a mãe segurava na mão de uma criança, sacudindo a vareta em cuja ponta uma rodinha virava loucamente cuspindo fogo.
 
Na totalidade das casas e das fazendas, o trono de São João deslumbrava com suas luzes e flores, sobre uma toalha branca, alvíssima, pregava nos cantos do altar com laços de fita.
 
Na roça, as fogueiras tinham no centro ou um mastro ou uma árvore que estalavam enquanto ardia. Os escravos e as escravas batucavam em volta do fogo assando batatas doces e caras. Assim nasceram os diversos ritmos brasileiros, que alcançaram os salões, onde imperava a música da corte de França, graças a atitudes, nem sempre bem recebidas e aceitas, de pessoas que uniram conhecimentos tradicionais de música erudita com a sensibilidade da nova alma brasileira. Chiquinha Gonzaga exemplifica bem esse importante passo.
 
Enquanto a fazendeira, atenciosa e distinta, mandava servir aos convidados pires de canjica, manjar, roletes de cana assada e bolos de São João, as moças soltavam pistolas de lágrimas, craveiros de chuva de ouro ou, agrupadas em volta das massas, deitavam dados, liam as quadrinhas da sorte, rindo diante de um versinho assim:

Um velho torto e pançudo,
De nariz de palmo e meio,
Há de ser o teu consorte
Mui breve, segundo creio.

Os negros despejavam carros de milho, caras, canas verdes, na fogueira e os moços e moleques pulavam a fogueira, gritando, quando chegavam no alto – Acorda João!
Muitos dos festejantes cantavam então:

São João está dormindo, Não acorda não! Dê-lhe cravos, dê-lhe rosas e manjericão!

Nessa noite, nas grandes cidades, nos campos, nas chácaras, nas grandes fazendas, um pouco antes da meia-noite, aos clarões da fogueira, abriam-se, sem receio, as superstições que o tempo guardaria de séculos anteriores em louvor a São João plantar um dente de alho, se amanhecia grelado, obtinha-se o que se desejava.
 
Um copo cheio de água passado, em cruz, sobre a fogueira, quebrava-se dentro do líquido um ovo, clara e gema. De manhã, se apareciam os traços de um navio, isto significava viagem, se a forma era de igreja, significava casamento, se um caixão, enterro.
 
De um outro copo, também passado sobre a fogueira em louvor a São João, as moças solteiras tomavam um bochecho e colocavam-se atrás da porta da rua, com a boca cheia, o primeiro nome de homem que ouvissem pronunciar, seria o nome daquele que viria a ser seu marido.
Aos primeiros raios do sol, tomava-se o banho de São João, que tinha propriedades de cura.
 
Fechemos, a gora, as janelas do passado. Nas nossas cidades já não cabem as folias, as fogueiras, mas, as histórias cabem sempre e, relatar à juventude os costumes, os hábitos da cultura brasileira em sua aurora, permitem que os jovens compreendam melhor os passos evolutivos da cultura moderna e abram os olhos para valores imutáveis.
 
(Texto extraído da Revista Nós, Época de São João 2003, Escola Waldorf Rudolf Steiner, São Paulo)